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Cidade
Humilhação virtual
Assédio moral nas escolasGozações pela internet causam transtornos psicológicos e físicos em estudantes; prática é crime
GABRIELA YAMADA Gazeta de Ribeirão gabriela.yamada@gazetaderibeirao.com.br
A estudante de Ribeirão Preto C.H., 12 anos, foi transferida de escola este ano após ter fotos suas, seminua, publicadas no site de relacionamentos Orkut. Já J.A.R., 15, repetiu o ano após apresentar um quadro depressivo e hoje se trata de uma úlcera desenvolvida após descobrir chacotas de colegas de classe numa comunidade criada só para tirar sarro do "nerd da sala", como foi chamado.
Os dois adolescentes foram vítimas de um tipo de violência que ultrapassa as salas de aula e toma conta de espaços virtuais: o cyberbullying, ou o bullying virtual. Cyberbullying é uma expressão adotada para se referir à humilhação e perseguição de alunos.
Segundo Cleo Fante, coordenadora-geral do Cemeobes (Centro Multidisciplinar de Estudos e Orientações sobre o Bullying Escolar), no cyberbullying são utilizadas ferramentas como e-mails, torpedos, blogs, fotoblogs, Orkut e MSN com o intuito de maltratar, humilhar e constranger.
C.H. descobriu que suas fotos foram publicadas no mundo virtual depois de receber um alerta de uma amiga da mesma sala. A garota aceitou ficar seminua diante a câmera do computador enquanto conversava por MSN com um amigo, por quem era apaixonada. A recompensa por ela tirar a roupa seria um namoro.
Com as imagens gravadas, o garoto criou um novo perfil no Orkut e espalhou as fotos para toda a turma da sala na mesma noite.
Segundo o advogado Ricardo Opice Blum, especialista em Direito Digital, a sensação de anonimato facilita a ação do cyberbullying, uma vez que os adolescentes podem imaginar que sua verdadeira identidade nunca poderá ser descoberta. Caso o adolescente responsável pela intimidação virtual tenha a idade inferior a 16 anos, seus pais ou responsáveis responderão pelo crime.
Se tiver entre 16 e 18 anos de idade, responderão junto com seus pais ou responsáveis. Além de indenização à vítima, o ofensor poderá responder pelo crime de difamação (pena de um ano de prisão).
A estudante Kelly Godoy, 19, também foi vítima do cyberbullying, na escola onde estudou, por causa do peso.
"Mudei de colégio e tive acompanhamento psicológico", afirmou Kelly, que conseguiu tocar no assunto pela primeira vez depois de dois anos.
Vítima do bullying escreve diário
A estudante Daniele Vuoto, 23 anos, decidiu escrever o blog No More Bullying (www.nomorebullying.blig.ig.com.br) em 2005 após receber alta do tratamento médico devido ao trauma gerado por bullying escolar, quando tinha 16 anos.
"Passei por tratamentos errados, foi uma fase muito difícil para mim e toda minha família", lembra Daniele, que era alvo de chacotas de colegas da sala.
Após passar pelo tratamento, ela resolveu escrever um diário na Internet, quando uma pessoa anônima passou a acessá-lo diariamente e a deixar recados com insultos e palavrões. Daniele conseguiu identificar a adolescente que passou a insultá-la virtualmente.
"Muitos jovens acham que estão protegidos e acabam dizendo coisas que jamais teriam coragem de dizer pessoalmente. A maioria não faz idéia do que isso pode ocasionar", afirmou. "A menina ficou espantada, disse que não fazia idéia que estava me prejudicando e pediu desculpas", afirmou. Mesmo assim, ela decidiu apagar o blog.
Segundo Daniele, ela superou o trauma somente quando percebeu que não era culpada pelas agressões psicológicas. "Percebi que quem agride o outro é quem precisa ser ajudado."
Para fornecer informações a respeito do bullying e do cyberbullying, Daniele decidiu dividir as suas experiências em novo blog. "Mostrar a cara, para mim, era importante. Se eu me escondesse atrás de um apelido, a mensagem que eu passaria é que essas agressões são motivos de vergonha. Vergonha é perceber milhares de casos ocorrendo e ninguém dar atenção a isso", afirmou.

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