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Publicada em 7/1/2007

Cidade
Cerveja leva R$ 58/ano

Pesquisa do Ibope aponta que ribeirãopretano gasta por ano mais com bebida alcoólica que com refrigerante

IGOR SAVENHAGO
Gazeta de Ribeirão
igor.savenhago@gazetaderibeirao.com.br

Pesquisa divulgada recentemente pelo Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) revela que o gasto médio de cada ribeirãopretano com bebidas é de R$ 174,10 por ano. O levantamento foi feito através de um cruzamento de dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com os do próprio Ibope, colhidos em levantamentos sócio-econômicos realizados em 2006.

Segundo a pesquisa, o morador de Ribeirão gasta mais, em dinheiro, com cerveja e chope do que com refrigerantes. O gasto médio com cerveja e chope é de R$ 58,20 por ano na cidade - 33,5% do total de gastos per capita com bebidas -, ou algo em torno de R$ 32 milhões por ano. O valor leva em consideração todos os cerca de 550 mil habitantes da cidade, incluindo crianças, que não bebem.

Em segundo lugar, aparecem os refrigerantes (R$ 54,70 por ano, em média), seguidos por vinho e espumantes (R$ 3,20 por ano).

Segundo Amélia Caetano, gerente de novos produtos do Ibope Inteligência, setor do instituto que realizou a pesquisa, estes números colocam Ribeirão Preto como a 23ª cidade do País em potencial de consumo de líquidos.

O volume vendido na cidade representa 0,5% de toda bebida comercializada no território nacional. No topo da lista, está São Paulo. A capital paulista responde por mais de 11% das vendas do Brasil.

Apesar disso, o estudo revelou uma curiosidade: se for considerado somente o consumo por habitante, Ribeirão Preto supera a terra da garoa.

Enquanto em Ribeirão cada consumidor gasta R$ 174,10 por ano com bebidas, em São Paulo, o valor é de R$ 172,80. No quesito cerveja/chope, o consumo per capita em Ribeirão também é maior: R$ 58,20 contra R$ 57,60. O mesmo ocorre com os refrigerantes: R$ 54,70 por habitante/ano em Ribeirão e R$ 54,30 em São Paulo.

O levantamento revela, ainda, que o consumo nem sempre está relacionado com a renda dos
habitantes, mas, sim, com fatores como clima e investimento em propaganda. O maior consumo de cervejas foi verificado em Salvador (BA), com gasto médio por pessoa de R$ 101,00 por ano. A cidade que mais bebe refrigerante é Niterói (RJ) e Porto Alegre (RS) é a que mais consome vinho.

O Ibope ainda não divulgou todos os dados da pesquisa. O estudo completo só será lançado em março, juntamente com uma metodologia inovadora, denominada Pyxis (bússola, em grego), que irá trazer informações sobre o consumo de mais de 200 categorias de produtos.

De acordo com Amélia Caetano, o setor de bebidas foi um teste para verificar a aceitação do novo trabalho. "Desenvolvemos um programa totalmente que atualiza e reúne os dados de diversas fontes, como IBGE e Ibope. Isso permite identificar as diferenças de consumo entre as diversas classes e regiões, ao contrário da maioria dos indicadores existentes atualmente no mercado", explica Marcelo Coutinho, diretor-executivo do Ibope.

O agropecuarista João Ferraz Filho, o industriário Varlei Colombini e a podóloga Dete Silva são apenas alguns dos consumidores que ajudam a aumentar as estatísticas de venda em Ribeirão Preto. Sempre que podem, eles se reúnem em torno de uma mesa para degustar um bom chopp.

"Ribeirão é uma cidade quente, que facilita o bate-papo entre amigos. E a bebida ajuda a deixar o ambiente mais descontraído. Sem exageros, é claro", diz Ferraz.

Mercado é significativo, diz médico

Segundo o médico psiquiatra Erikson Furtado, chefe do Ambulatório de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, que trabalha com vítimas do alcoolismo, os números do Ibope mostram que o impacto econômico do mercado de bebidas alcoólicas é alto, trazendo divisas para a cidade.

Mas, por outro lado, as despesas para tratar dependentes do álcool também são significativas. Segundo ele, vários estudos já demonstraram que o custo das conseqüências de beber chega a ser maior, em algumas ocasiões, do que a renda obtida com a venda. Pensando nisso, Furtado dá dicas para quem gosta de beber cerveja ou chope. Confira:

A quantidade diária tolerada para homens é de 24 g de álcool, correspondente a dois copos de chope ou duas latas de cerveja.

Quem bebe somente uma vez por semana, a quantidade aceitável é de 60 g de álcool - cinco copos de chope, desde que tomados em ritmo lento, com a ingestão de alimentos e água nos intervalos entre um copo e outro.

Para mulheres e idosos, a quantidade tolerada é a metade da recomendada para os homens. Mulheres grávidas ou que estão pensando em engravidar devem evitar bebidas alcóolicas. (Gazeta de Ribeirão)

Calor leva para os bares

As altas temperaturas de Ribeirão foram o fator mais citado pelos consumidores de cerveja e chope ouvidos pela Gazeta na cidade para explicar os dados divulgados pelo Ibope.

Para o casal André Morais, farmacêutico, e Caroline Fontanari, estudante de química, o forte calor é a principal razão para que eles procurem um barzinho. "Ribeirão é uma cidade muito quente, abafada. Sempre que a gente pode, vai a algum lugar para se refrescar".

O engenheiro civil Guilherme Ferrucci e a fisioterapeuta Fernanda Jatte têm opinião parecida. Segundo Ferrucci, que é de Ribeirão, mas trabalha no Pará, em todas as vezes que visita a terra de origem, não deixa de apreciar uma cerveja ou um chopp gelado.

A pesquisa também fez um levantamento sobre o consumo de água mineral, café, chá, aguardente, sucos e refrescos em geral, mas os dados sobre estes itens ainda não foram divulgados. (Gazeta de Ribeirão)

Total chega aos R$ 32 mi

Se o consumo per capita de chope e cerveja em Ribeirão (R$ 58,20) for multiplicado pela sua população (550 mil habitantes, aproximadamente), o resultado é um movimento financeiro de cerca de R$ 32 milhões por ano.

Uma das razões para o alto consumo é o grande número de turistas que todos os dias visitam a cidade e não deixam de dar uma "paradinha" no Pingüim, a casa do gênero mais famosa da cidade. A marca, que completou 70 anos em 2006 e tem três unidades em Ribeirão - além de uma em Belo Horizonte -, é, em muitos casos, a única referência para alguém que chega à cidade pela primeira vez.

E os números mostram a força da tradição. O Pingüim recebe, em média, 100 mil clientes por mês e comercializa entre 70 e 80 mil litros de chopp. Para manter toda esta quantidade em temperatura que agrada o paladar e preserva a qualidade da bebida são necessárias 100 toneladas de gelo. (Gazeta de Ribeirão)

Costume, falta de lazer e mídia incentivam

Na visão do sociólogo Ubaldo Silveira, são três os fatores que estimulam o consumo de bebidas alcoólicas na cidade, principalmente cerveja e chope. O primeiro aspecto é cultural. Segundo ele, o fato de Ribeirão Preto ser considerada a terra do chope faz com que tanto os moradores daqui como os de outras cidades deixem bebidas mais saudáveis, como sucos naturais, em segundo plano.

Em seguida, está a falta de opções de lazer. "Com o fechamento dos cinemas do centro da cidade e a existência de poucas atrações teatrais, os eventos culturais ficam restritos a uma minúscula parcela da população, com maior poder aquisitivo. |A única diversão da maioria dos jovens é o bate-papo com os amigos num bar".

O terceiro motivo, segundo ele, é a permissão deliberada para anúncios de bebida alcoólica no país. "A propaganda de cerveja é exagerada. Em Ribeirão, ela se torna eficiente, tendo em vista o grande número de jovens universitários presentes na cidade", analisa.

O assunto preocupa, também, a chefe do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da USP de Ribeirão Preto, Margarita Antônia Villar Luís. No ano passado, ela coordenou um trabalho com 3.600 alunos de ensino médio de 28 escolas do município - 26 estaduais e 2 particulares - e colheu resultados expressivos. Segundo ela, cerca de 70% deles admitiram ingerir bebidas alcoólicas costumeiramente, sendo que a grande maioria começou a beber entre 10 e 12 anos de idade.

"A cerveja, por exemplo, normalmente é associada com coisas que o jovem valoriza, como festas e vínculo como sexo oposto. Além disso, as famílias ainda acham que ela não é uma bebida tão perigosa, o agrava o problema", afirma. A alternativa, segundo ela, é promover nas escolas um programa de prevenção constante, não somente em épocas como o Carnaval. (Gazeta de Ribeirão)

NÚMERO

54 reais é o consumo médio de refrigerante por ano em Ribeirão por pessoa.

NÚMERO

3,20 é o valor gasto por pessoa em Ribeirão, por ano, com vinhos e espumantes.

NÚMERO

100 mil pessoas frequentam o Pinguim em Ribeirão todo ano, diz a empresa.